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_Alguns dados sobre os jornais locais_

BEIRA VOUGA

BEIRA VOUGA: A PROFÍQUA CAMINHADA DE UM JORNAL (2)

No artigo anterior procurei dar uma visão da Segunda fase do «Beira Vouga», que agora entrou no seu 25.° ano. Mas, antes desta, teve uma outra fase com períodos igualmente brilhantes num contributo assinalável para a cultura e a vida da nossa região.

PRIMEIRA FASE: 1941 / 1953

O primeiro número saiu a 13 de Abril de 1941 e apresentava-se como «quinzenário defensor dos interesses da região. Tinha como «Director, editor e proprietário - Vasco de Lemos Mourísca», como «administrador - José de Oliveira Neves» e era «composto e impresso na Tipografia Vouga - Albergaria-a-Velha». Vasco Mourisca, então com 30 anos, tinha deixado a vida agitada e aventurosa das tertúlias e do Parque Mayer de Lisboa e o curso inacabado de Direito e fixara-se em Albergaria, na casa de seus pais. Espírito vivo, poeta e prosador já publicado, resolvera dedicar-se ao jornalismo regiona1ista, que vem a ser afinal a sua grande paixão até à morte. Tem uma maneira muito directa e muito pessoal de escrever e de fazer um jornal. E isso cativa e arrasta os leitores.

O «Beira Vouga» vai ser um jornal diferente e polémico,. informativo e combativo. São principalmente jovens os seus colaboradores, mas também há nomes, conhecidos no universo do pensamento nacional. Alguns dos que virão a ser dos mais assíduos colaboradores da segunda fase iniciaram-se neste primeiro período e aindaa gora continuam escrevendo com regularidade, como é o meu caso e o do Augusto de Lemos Henriques Pinheiro «Beira Vouga» é o nome mais feliz e significativo de todos os periódicos do nosso concelho. E por isso continua e continuará até se tornar no jornal com maior longevidade da vila, ultrapassando o já extinto «Jornal de Albergaria», que durou mais de meio século. O que terá originado o seu aparecimento?

Regressado à terra, enquanto acalmava dos excessos da vida lisboeta e preparava a conclusão do curso na Faculdade de Direito de Coimbra, Vasco Mourisca lançou-se nesta aventura nova e necessária ao seu espírito inquieto. É quea sua constante ânsia de mudança e o seu irrequietismo não se coadunavam com a vida estagnada molemente na Albergaria do início dos anos quarenta. O jornal iria ser a tribuna regional em que se reflectíria o pensamento do director e não fugiria ao clima da Guerra no degladiar violento entre os Aliados e os Alemães, cujas propagandas animavam as discussões de café entre os anglófilos e os germanófilos. Era o tempo em que ninguém de são espírito, nem a fiel BBC, na voz vibrante e irónica do Fernando Pessa, seria capaz de conceber a louca barbárie nazi. Então, no dia 13 de Abril de1941, já lá vão 46 anos, aparecia o «Beira Vouga», apresentando-se num longo artigo de fundo «Sinfonia de Abertura» com o seu programa e a afirmação do Director como discípulo de António Sardinha, defensor de «uma acção eminentemente cristã» e dos «interesses locais - o localismo».

O titulo do quinzenário, era assim justificado: «Escolhemos para título jornal «Beira Vouga», pretendendo com ele significar que não viemos só em defesa dos interesses da vila, mas, mais extensamente, nos de toda a região por onde o Vouga serpeia, argênteo e belo. É neste sentido que entendemos a palavra localismo supra-citada». A juventude, o entusiasmo e a capacidade do Director e do grupo de colaboradores de que sempre se rodeou conseguiram que o jornal ultrapassasse o período difícil da 2.a Guerra com regularidade nas suas 6 a 12 páginas, sensivelmente com o formato, que ainda hoje tem.

Entrado já no quarto ano de publicação, no n.° 71, aparece como Sub-Director - Delfim Álvares Ferreira, num ajuda, que procura conceder ao Director algum tempo disponível para concluir o curso de Direito e entrar na advocacia. Em 26 de Maio de 1946, passados já mais de cinco anos sobre o aparecimento do 1º número Vasco Mourisca abandona, a direcção do seu primeiro jornal.

No artigo «Adeus, Beira Vouga» anuncia que vai entrar na esfera de actividades da ALBA É o que efectivamente se verifica no n.° 99, de 15 de Dezembro. de 1946, em que surgem as indicações da mudança. Proprietário-Augusto Martins Pereira; Director - Albérico Martins Pereira; Editor -José Bertão Ribeiro; Redacção e Administração - Cavada Nova, Albergaria-a-Velha,Tel. 6. A composição e impressão continuam na Típ.Vouga.

No artigo de fundo - «Explícando», diz-se que o Dr. Vasco Mourisca, pela nova orientação que pretendeu dar à sua vida, viu-se perante o doloroso dilema: «ou acabar com o jornal, ou cedê-lo outrem. Ora numa terra como a nossa, onde tudo o que é necessário e útil parece estar subjugado a um fatalismo prejudicial, deixar morrer um jornal que prestou, incontestavelmente, bons serviços e os poderia continuar a prestar no futuro, seria coisa imperdoável que cumpria evitar.

Os proprietários das «Fábricas Alba»[ ... ], como amigos desta terra e impulsionadores costumados do seu progresso […] resolveram adquiri-lo». Era uma forma eufemística de disfarçar uma realidade constante na imprensa regional - a sua debilidade ou mesmo a sua ruína económica. Na verdade, o quinzenário vai continuar, embora com uma faceta diversa, com a maioria dos habituais colaboradores, incluíndo a constante presença do seu anterior director. Além disso era também a forma de caminhar do projecto ALBA que estendia a sua influência e distribuía o seu dinheiro, animando muitas dos sectores da vida albergariense. Que me lembre, até final dos anos sessenta, os proprietários da ALBA construíram os edificios do Cíne-Teatro Alba, do Hospital e da Sopa dos Pobres. Detiveram as direcções do Clube de Albergaria, da Misericórdia, dos Bombeiros e da Presidência e Vice-presidência da Câmara Municipal. Transformaram o Sporting Clube de Albergaria no Sport Clube Alba e o seu velho Campo das Laranjeiras no «Parque de Desporto e Recreio Alba» e a Banda Albergariense na «Banda Alba», contratando teinadores e regentes, jogadores e músicos de boa craveira para prestígio da empresa e da vila. E até construíram carros de corrida «Alba» que apareceram como magníficos vencedores em provas nacionais e internacionais.

A manutenção do «Beira Vouga» era a achega, sobretudo, cultural, para a obra realizada pela Família Martins Pereira, da qual Albergaria veio a beneficiar largamente em múltiplos aspectos. A partir do n.° 117, de 15 de Novembro de 1947, o jornal passa a ser composto e impresso, primeiro na Tip. Azeméis, Lda., de Oliveira de Azeméis e, depois de 1952, na Gráfica Aveirense, de Aveiro. A sua saída começa a tornar-se irregular e o número de páginas dimimui, prenunciando o seu fim próximo. Creio que a morte prematura de Américo Martins Pereira, em 1949, quando era um promissor Presidente da Câmara terá alguma coisa ver com este facto.

0 último número que conheço é o 177, de 13 de Agosto de 1953, Ano XII. No final da colecção existente na Biblioteca Municipal do Porto, encontra-se uma carta timbrada com o nome de Albérico Pereira, datada de 22 de Dezembro de 1955, em que o último Director do jornal informa, em resposta a um postal da Biblioteca, que o quinzenário foi extinto. Aqui deixo uma ideia da primeira fase do «Beira Vouga», fonte indispensável para a compreensão de uma época que marcou a profunda viragem que, neste século agora prestes a terminar, começou a marcar profundamente a nossa região.

Alburquerque Pinho / Beira Vouga nº 407 de 1 de Setembro de 1987

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